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Mestre Cobrinha Verde

Primo e discípulo direto de Besouro Mangangá, Mestre Cobrinha Verde foi um dos grandes guardiões da mandinga, do jogo de navalha e da Capoeira Angola tradicional no século XX.

Informações do Mestre

Nome completo: Rafael Alves França

Estilo: angola

Nascimento: 1917

Falecimento: 1983

Grupo: Centro Esportivo de Capoeira Angola Dois de Julho

Biografia

Rafael Alves França, conhecido como Mestre Cobrinha Verde, nasceu em 24 de outubro de 1917, em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, e faleceu em 12 de maio de 1983, em Salvador. Embora existam divergências em registros mais antigos — apontando anos como 1908 ou 1912 —, a historiografia mais aceita consolida o ano de 1917 como referência. Sua trajetória ocupa lugar singular na história da capoeira por representar o elo direto entre a capoeira mítica de Besouro Mangangá e a Capoeira Angola tradicional institucionalizada no século XX.

Cobrinha Verde era primo carnal e irmão de criação de Besouro Mangangá. Iniciou-se na capoeira ainda criança, por volta dos quatro anos de idade, aprendendo diretamente com ele a chamada “arte do perigo”, marcada por jogo de corpo, malícia extrema e enfrentamento real. O apelido “Cobrinha Verde” foi dado pelo próprio Besouro, em referência à agilidade fulminante das pernas e à precisão estratégica de seus movimentos.

Além da influência direta de Besouro, formou-se com mestres da velha guarda de Santo Amaro, como Siri de Mangue, Canário Pardo e Doze Homens. Sua formação incluía profundo domínio da mandinga, do jogo psicológico e do uso de armas brancas, elementos intrínsecos à capoeira de rua do início do século XX. Foi um dos últimos grandes conhecedores do toque de Santa Maria, associado ao jogo de navalha, além de dominar a esgrima com facão.

A dimensão espiritual sempre acompanhou sua prática. Cobrinha Verde relatava ter aprendido orações fortes e fundamentos de proteção com um africano chamado Pascoal, vizinho de sua avó. Histórias de feitos extraordinários, como o episódio de 1925 em que teria escapado ileso de uma emboscada policial, compõem o imaginário simbólico que cercava sua figura e expressam a aura de respeito e temor associada à sua presença.

Um dos pilares de sua ética foi a fidelidade a uma promessa feita a Besouro Mangangá: jamais cobrar dinheiro para ensinar capoeira. Cobrinha Verde manteve esse compromisso até o fim da vida, sustentando-se como pedreiro e, posteriormente, como militar reformado, tendo alcançado a patente de 3º sargento.

Em Salvador, fundou o Centro Esportivo de Capoeira Angola Dois de Julho, no Alto de Santa Cruz, no Nordeste de Amaralina. A academia tornou-se um dos principais redutos da Capoeira Angola tradicional. Em determinados períodos, dividiu atividades com Mestre Pastinha e contribuiu para a formação de mestres como João Grande e João Pequeno. Teve também relação direta com Mestre Gato Preto, que atuou como seu contra-mestre de bateria entre 1952 e 1954.

Sua vida atravessou episódios marcantes da história brasileira. Após perseguições políticas no Recôncavo, integrou por cerca de três anos o grupo de jagunços liderado por Horácio de Matos, no contexto do cangaço baiano. Atuou na Revolução de 1930 e na Revolução Constitucionalista de 1932, além de viver por um período em Manaus, onde teve contato com comunidades indígenas.

Em 1963, participou do LP “Capoeira da Bahia”, lançado pela Editora Xauã, ao lado dos mestres Traíra e Gato Preto, registro considerado fundamental para a preservação sonora da Capoeira Angola. Além do berimbau, era exímio tocador de viola e praticante do samba de pandeiro, sendo referência para pesquisadores da cultura do Recôncavo.

Mestre Cobrinha Verde é lembrado como o “mestre dos mestres” por sua ligação direta com Besouro Mangangá e pela preservação de fundamentos quase perdidos com a modernização da capoeira. Recebeu homenagens póstumas, como um painel artístico inaugurado em Salvador em 2021 e a inclusão de sua estátua na Arena da Capoeira, inaugurada em 2024. Sua figura permanece como elo entre a capoeira mítica do início do século XX e a tradição angoleira transmitida até os dias atuais.

Contribuições

  • 1921 Iniciação na capoeira ainda na infância, sob orientação direta de Besouro Mangangá, em Santo Amaro da Purificação
  • 1920–1930 Formação na capoeira de rua do Recôncavo Baiano, com domínio da mandinga, do jogo psicológico e do uso de armas brancas
  • 1930–1935 Vivência no cangaço baiano ao lado do grupo liderado por Horácio de Matos, após perseguições políticas
  • 1930–1932 Atuação como militar, com participação nos movimentos políticos de 1930 e na Revolução Constitucionalista de 1932
  • 1940–1970 Fundação e atuação no Centro Esportivo de Capoeira Angola Dois de Julho, em Salvador
  • 1952–1954 Formação e trabalho conjunto com Mestre Gato Preto como contra-mestre de bateria
  • 1963 Participação no LP 'Capoeira da Bahia', registro fonográfico fundamental da Capoeira Angola
  • 1960–1980 Preservação e transmissão da Capoeira Angola tradicional, com formação de mestres como João Grande e João Pequeno
  • 2021 Homenagem póstuma com painel artístico monumental em Salvador
  • 2024 Homenagem póstuma com estátua na Arena da Capoeira, em Salvador

Linha do Tempo

1917

Nascimento

Rafael Alves França nasceu em 1917

1920–1930

Contribuição

Formação na capoeira de rua do Recôncavo Baiano, com domínio da mandinga, do jogo psicológico e do uso de armas brancas

1921

Contribuição

Iniciação na capoeira ainda na infância, sob orientação direta de Besouro Mangangá, em Santo Amaro da Purificação

1930–1935

Contribuição

Vivência no cangaço baiano ao lado do grupo liderado por Horácio de Matos, após perseguições políticas

1930–1932

Contribuição

Atuação como militar, com participação nos movimentos políticos de 1930 e na Revolução Constitucionalista de 1932

1940–1970

Contribuição

Fundação e atuação no Centro Esportivo de Capoeira Angola Dois de Julho, em Salvador

1952–1954

Contribuição

Formação e trabalho conjunto com Mestre Gato Preto como contra-mestre de bateria

1960–1980

Contribuição

Preservação e transmissão da Capoeira Angola tradicional, com formação de mestres como João Grande e João Pequeno

1963

Contribuição

Participação no LP 'Capoeira da Bahia', registro fonográfico fundamental da Capoeira Angola

1983

Falecimento

Rafael Alves França faleceu em 1983

2021

Contribuição

Homenagem póstuma com painel artístico monumental em Salvador

2024

Contribuição

Homenagem póstuma com estátua na Arena da Capoeira, em Salvador